July 7, 2023

Primeira Pessoa

por Daniel Perdomo

Nos últimos textos, enquanto explorava os temas sobre investimentos e a complexa psicologia do investidor, me expressei, predominantemente, em terceira pessoa. Essa abordagem tinha como objetivo fornecer uma sensação institucional de objetividade e, ao mesmo tempo, distanciamento – permitindo analisar conceitos e teorias sob uma perspectiva mais observacional. No entanto, à medida que evoluo sobre os diferentes assuntos, me sinto cada vez mais confortável em romper com essa convenção e adotar um estilo de comunicação mais pessoal. 

Acredito que, ao escrever em primeira pessoa, conseguirei estabelecer uma conexão mais profunda com você, enquanto refletimos sobre cenário, conhecimento técnico, desenvolvimento do portfólio, erros, desafios e conquistas. Essa mudança de perspectiva tem o intuito adicional de criarmos espaço para o diálogo aberto e o compartilhamento de insights.

Para falarmos sobre o contexto econômico e as implicações sobre os portfólios, pensemos o seguinte:

Qual tipo de investidor nós somos?

1. Investidor de Longo Prazo: estabelece uma alocação estratégica com base nos fundamentos dos ativos escolhidos, é emocionalmente forte e lida bem com o desconforto emocional diante dos ruídos do mercado financeiro, utiliza as oscilações do mercado para ajustes táticos e acredita no poder dos juros compostos e na margem de segurança. 

Comentário Trium

Mais sobre o tema pode ser lido na carta de Janeiro de 2022

2. Investidor de Curto Prazo: é pressionado por mudanças e ruídos de curto prazo da economia, com tendência a alterar a composição do portfólio a cada notícia, visando conforto emocional, ainda que prejudique a evolução de longo prazo.

Para ser considerado um investimento, um ativo tem que combinar taxa de retorno positiva com o tempo, fazendo com que tenha muito mais valor no futuro do que hoje. Aquele que se mantém firme a uma estratégia de longo prazo obterá lucros muito maiores do que o investidor de curto prazo. E, ainda que pareça extremamente intuitivo, na minha experiência constatei que existem mais investidores com viés de curto prazo do que o inverso. 

Comentário Trium

Mais sobre esse tema, em especial sobre o poder dos Juros Compostos, pode ser lido na carta Exponencial

Portanto, sendo pragmático, o tipo 2 dificilmente terá algum sucesso no mercado financeiro – e até em outros campos da vida, tendo em vista que o caminho que nos inflige mais dor no curto prazo é tipicamente aquele com o maior potencial de ganho composto no longo prazo. Renunciar ao conforto no presente para benefícios compostos no futuro é a essência sobre investir, e estar incomodado em determinados momentos faz parte da construção e evolução do portfólio – e, por conseguinte, da riqueza financeira.

Dito isso, nos últimos vinte e quatro meses tivemos uma dicotomia sobre a qual escreverei alguns comentários: período de inflação maior do que o CDI na primeira metade deste período, e inflação menor do que o CDI na segunda metade. 

Assim, ainda no início de 2021 até meados de 2022, investidores foram pressionados pela conjuntura para alocar os recursos em ativos que superassem a inflação. Em um primeiro momento, os resultados foram muito fortes, até que a transição para a normalidade (CDI entregar retornos acima da inflação) e a volatilidade dos retornos dos dois benchmarks foram potencializadas pela diminuição transitória de impostos no governo anterior e pelo rápido aumento da Selic, com sua manutenção em patamares altos pelo Banco Central, invertendo a pressão alocativa.

Então, investir em papéis IPCA + foi um erro? Sonoramente: não. Não acredito em futurologia e, portanto, é possível dizer que ninguém esperava a forte redução de impostos por decreto, concomitantemente a elevação da Selic para o atual patamar.

Olhando para os últimos doze meses, hoje nós temos uma inflação de 3,94% (IPCA) e um CDI de 13,38%.

E quais foram os efeitos destas alterações sobre os portfólios?

(Lembrando que tivemos, entre outros fatores, o evento Americanas – que desencadeou uma reprecificação do mercado de crédito, impactando os portfólios nos primeiros meses de 2023) 

Para os investidores de longo prazo, cientes do conceito de Margem de Segurança e alinhados com a nossa filosofia, não tivemos perdas irrecuperáveis, uma vez que os portfólios são construídos sobre bases sólidas e com cronograma de liquidez. Os ativos “IPCA+” que não apresentam mais as características necessárias (margem de segurança) para o longo prazo estão vencendo, e cumpriram a função como ponte enquanto a inflação estava alta. A realocação está sendo feita nos ativos mais adequados para o cenário vigente, e com boa margem para o futuro. O ônus poderá ser uma rentabilidade menor do que o CDI neste ano, ainda que com ganhos muito acima da inflação. Utilizei a palavra “poderá”, já que ainda temos mais seis meses até o final do ano.

Para os investidores de curto prazo e que são afeitos a tomarem atitudes mais alinhadas com o momento econômico (em detrimento do longo prazo), a concentração em ativos IPCA+, com baixa margem de segurança, sem o cronograma de liquidez adequado, alongará o processo de transição e, em determinados casos, ocasionará rentabilidades abaixo do CDI pelos próximos anos. Neste caso, o investidor comprou o conforto de curto prazo e o preço será pago no portfólio, nos períodos subsequentes. Não como rentabilidade negativa, mas como rentabilidade abaixo do retorno potencial para cada perfil.

Sobre ações e dividendos

O CFA Institute, um dos mais renomados centros de finanças do mundo, divulgou um documento revisitando o Prêmio de Risco, que é o excesso de retorno que investir em ações traz sobre a taxa livre de risco. Em linha com a filosofia de investimentos do escritório para investimentos em ações a longo prazo, os resultados são bastante interessantes.

“Os dividendos sempre foram a fonte dominante dos retornos do mercado de ações. A figura abaixo decompõe o retorno das ações em vários componentes. Esta conclusão é fruto do trabalho de Roger e do trabalho de Elroy, mas nós a remetemos a 1800 usando os dados de G. William Schwert. Em qualquer caso, o dividendo compreende a maior parte do retorno para ações, e se você tirar o componente de inflação (a linha vermelha), esse retorno é ainda mais relevante. A linha azul mostra que crescimento real dos dividendos por ação (do S&P 500 e índices predecessores e de índices hipotéticos anteriores em períodos em que não existiam índices publicados) foi apenas de 11 vezes nos últimos 221 anos. E a valorização para cima (na relação preço/dividendo) triplicou, como vemos na linha laranja - é ainda maior se você começar nas mínimas do mercado como os do início dos anos 1930.”

(Tradução Livre)

Concluindo: com base em mais de 140 anos de histórico, os dividendos são a maior fonte de retornos e investir empresas que, dentre outras características, paguem bons dividendos e com constância é interessante. Tendo em vista todas as empresas de capital aberto, apostar em expansão de valuation como fonte de retorno é semelhante a acertar na lotomania e, portanto, não é uma fonte de retorno aceitável para construção de patrimônio a longo prazo, sendo a assimetria negativa maior do que a positiva.

O link para o estudo citado está disposto ao final do texto.

Curtas

Acredito firmemente que a Trium é a melhor empresa para o investidor, já que o alinhamento para o longo prazo é integral:

  • A filosofia do escritório é consistente e reconhecida. Somos especialistas em preservar e evoluir patrimônios.
  • Não temos metas de produtos.
  • O investidor escolhe como quer nos remunerar, seja por produtos ou por um valor fixo.
  • A evolução do patrimônio dos nossos investidores aumenta organicamente o nosso volume sob custódia – não existe incentivo em fazer o oposto. Ir em direção contrária significa gerar receita e conforto de curto prazo, em detrimento dos juros compostos que os portfólios, em conjunto, também nos proporcionarão enquanto empresa.
  • Os resultados dos portfólios e o extremo alinhamento às necessidades dos clientes nos garantem aportes e indicações de novos clientes.
  • Estamos consistentemente aprimorando os nossos processos e adquirindo mais conhecimento.

Enquanto companhia, conseguimos crescer devido à entrega de resultados consistentes e à confiança dos nossos investidores. E isso não mudará!

Link para estudo

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.