May 9, 2023

Oportunidade!

por Daniel Perdomo

Na carta intitulada Exponencial, divulgada em 09/08/2022, escrevemos que: 

"Investir é o ato de comprar ativos que tenham o potencial de aumentar de valor ao longo do tempo, proporcionando retornos na forma de dividendos ou ganhos de capital. Todavia, para grande parte dos investidores, a expressão "ao longo do tempo" significa o mais rápido possível."

Nesse sentido, os assessores do escritório são constantemente questionados, por investidores ainda não habituados com a nossa filosofia, sobre a disponibilidade de eventuais produtos que poderão gerar vultosos ganhos no curto prazo para os portfólios – e porque não oferecemos estas oportunidades com a frequência que as outras instituições fazem. 

 

Respondemos, ainda conforme a carta Exponencial, que a forma possível de termos ganhos consistentes e sustentáveis é através do efeito dos juros compostos sobre o patrimônio, tendo em vista que:

"A característica mais importante de uma função exponencial é o aparecimento da principal variável no expoente, sendo que a mais importante para o mercado financeiro são os juros compostos. Nela, a variável citada é o tempo, pois o valor dos juros gerados pela aplicação depende do tempo em que ela é aplicada, conforme a fórmula geral abaixo: 

Assim, a composição pelos juros é o processo no qual os ganhos de um ativo são reinvestidos para gerar ganhos adicionais ao longo do tempo, e quanto maior o horizonte de tempo maior será o volume adquirido. Esse crescimento ao longo do tempo (e não “o mais rápido possível”) será exponencial porque o investimento gerará ganhos tanto do principal investido quanto dos ganhos acumulados dos períodos anteriores. Portanto, é o tempo (t) a variável que mais premia os investidores!"

Por isso, um dos nossos principais desafios é não interrompermos os efeitos dos juros compostos sobre o volume investido, ainda que sejamos rotulados de apáticos por não atuarmos como o modelo preponderante do mercado – que possui o foco na distribuição dos produtos (oportunidades!), e não nos objetivos dos investidores, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas. 

Um dos anos que mais desafiou a nossa filosofia e colaborou para alguns debates com os nossos clientes foi o ano de 2021. O mercado de ações estava em um estado favorável, com forte sentimento positivo do investidor com relação ao futuro e com alta demanda por ativos de risco. Adicionalmente, as baixas taxas de juros impulsionavam a busca por rentabilidade fora da renda fixa. 

Nesse sentido, as empresas estavam diante de condições propícias para levantarem recursos nas bolsas de valores, através de IPOs, com o apoio e coordenação dos Bancos de Investimentos (que são remunerados pelo sucesso destas operações). No limite, em uma oferta pública de ações, empresários vendem parte de sua empresa ao público e, portanto, quanto maior o valor recebido melhor. Portanto, é comum vermos companhias sendo lançadas a valuations bastante esticados, dificultando a geração de valor para quem compra estes papéis.

No ano citado, foram mais de 40 ofertas públicas de ações – e fomos muito criteriosos nos estudos sobre essas “oportunidades”. Concluímos que, estatisticamente, menos de 5% das emissões estavam condizentes com os nossos filtros. Traduzindo, deixamos de apresentar, no mínimo, 38 “oportunidades” (será?) para os clientes, enquanto estes eram bombardeados por outras instituições.

Alguns resultados:

IPO

Initial Public Offering, ou “Oferta Pública Inicial”. É o procedimento usado para empresas abrirem capital – ou seja, para terem suas ações negociadas na Bolsa de Valores. 

Notamos que os resultados não foram interessantes e que, durante o período, cumprimos a nossa missão de preservar e evoluir os patrimônios confiados ao escritório. 

Oportunidades se tornaram problemas, e o investidor que não avaliou corretamente a relação risco x retorno, adquirindo várias das emissões acima, prejudicou o poder dos juros compostos sobre o volume investido. Temos várias razões para sermos zelosos e, uma delas, conforme a carta Consistência, de 30/09/2021, é que “o esforço de recuperação de perdas de um portfólio é muito maior, a partir de um certo ponto, que o percentual da queda”. Relembrando:

Não somos contra IPOs! Pelo contrário, somos incentivadores e consideramos que um mercado de capitais forte é um dos principais propulsores das economias mundiais. Todavia, temos o dever fiduciário de mantermos os interesses dos nossos clientes e investidores sempre como foco da nossa atuação. E, para isso, não hesitaremos em sermos criteriosos, diligentes e, com frequência, irmos contra as pressões do mercado e da manada.

E para quem entrou em grande parte destes IPOs?

Recomendamos ler a carta Paciência e Disciplina, divulgada em 28/05/2021, na qual demonstro que um conjunto de empresas que fizeram IPO em 2007, escolhidas de forma aleatória, entregaram resultados satisfatórios após 13 anos de histórico – já que a rentabilidade das empresas vencedoras superou a queda dos preços do grupo das empresas cujas ações se desvalorizaram durante o período. O tempo será o melhor remédio para esta intercorrência.

Temos que reconhecer as nossas limitações enquanto investidores e como estão dispostos os incentivos financeiros dos distribuidores do mercado de capitais, para não interrompermos o efeito dos juros compostos em nossos patrimônios. Como demonstrado, desconsiderar os fundamentos dos ativos, tentar cronometrar o mercado ou perseguir tendências de curto prazo em busca de dinheiro rápido poderá levar a perdas irrecuperáveis, a depender do horizonte de investimentos. 

Ao permanecermos pacientes, disciplinados e focados na criação de valor de longo prazo, enfrentaremos todos os desafios do sistema financeiro e, com alto grau de certeza, obteremos retornos sustentáveis ​​ao longo do tempo.

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.