August 1, 2023

F=E-R

por Daniel Perdomo

No mês de julho tive que responder, recorrentemente, o porquê de os ativos de risco no Brasil estarem se valorizando e o dólar se desvalorizando perante o real. Nossos investidores afirmaram que as notícias que recebem via WhatsApp não são animadoras e que, por isso, não conseguem entender este movimento. Inicialmente, respondi que temos que diferenciar os ruídos dos sinais – aquilo que pode se tornar um fato e o que é meramente uma expectativa ou uma peça criada para nos distrair da verdade. Um pouco mais sobre ruídos e sinais pode ser lido em nossa Carta de julho de 2021.

Dito isso, resumi o que está ocorrendo com o Brasil através de uma equação:  

Frustração = Expectativa – Realidade

Esta equação sugere que a frustração surge quando há uma disparidade entre o que esperamos ou desejamos (nossas expectativas) e o que realmente acontece (a realidade). Se esperamos que algo muito bom aconteça e o resultado concreto é uma situação ruim, ficamos frustrados. E o inverso também é verdadeiro!

Portanto, no início do ano, as expectativas para o país estavam muito baixas, mas a realidade que se apresentou para o Brasil foi melhor do que a esperada (conforme descrevo abaixo). Nesse sentido, tivemos o resultado inverso, com o sentimento de frustração dando lugar a um entusiasmo relativo.

Expectativa dos investidores

Inflação alta

Déficit primário*

Juros altos por longo período

Economia decadente

Realidade apresentada

Inflação em desaceleração

Possibilidade de queda consistente da taxa Selic

Superávit primário*

Economia crescendo 

Temos um caso clássico da teoria da reflexividade, desenvolvida por George Soros, que explica a interconexão entre os mercados financeiros e as crenças dos investidores. De acordo com Soros, a reflexividade é uma condição em que as percepções dos participantes do mercado influenciam o ambiente e, este, por sua vez, afeta as percepções dos investidores. Isso cria um ciclo de retroalimentação, onde as crenças dos investidores afetam os preços dos ativos e, ao mesmo tempo, os preços dos ativos influenciam as crenças dos investidores.

Em outras palavras, a reflexividade sugere que as avaliações subjetivas dos investidores e suas expectativas podem levar a desvios significativos entre o valor intrínseco de um ativo (seu preço “justo”) e o seu preço de mercado. 

Como as expectativas sobre o Brasil estavam em campo pessimista, com características de retroalimentação, várias ações estavam subavaliadas e, na outra ponta, a curva de juros estava mais aberta e o dólar valorizado. Tendo em vista a realidade apresentada e a nova narrativa criada, o entusiasmo relativo remarcou positivamente os papéis das empresas, com fechamento de curva e valorização do real.

Recebi outra pergunta, desdobrando o tema anterior:

Então posso arriscar, consideravelmente, mais?

Depende (resposta clássica). Como já citei em várias Cartas, a função precípua do escritório é a preservação e a evolução do patrimônio de nossos clientes. Nesse sentido, acredito que todo investidor deve investir respeitando o perfil de risco intrínseco, em uma situação de equilíbrio basal entre a agressividade e o conservadorismo. 

Não confiamos os resultados dos portfólios às projeções macroeconômicas e não somos afeitos ao market timing. Portanto, considerando que arriscar mais é o equivalente a aumentar, consideravelmente, o volume em renda variável, eu só o faria caso o perfil de risco de cada investidor assim permita (caso o pêndulo esteja desequilibrado, voltado de forma desproporcional para o conservadorismo) e respeitando todas as premissas de margem de segurança de cada ativo. É muito mais uma questão de escolha individual de papéis (bottom up) do que uma aposta unidirecional no mercado como um todo.

Relembrando, o Fear of Missing Out (medo de perder pretensas oportunidades) é um dos grandes erros dos investidores, e entrar em determinados ativos (fora do seu perfil) porque o seu colega está com retornos de curto prazo melhores do que o seu pode levar a perdas irrecuperáveis e à interrupção dos juros compostos.

*Superávit primário é o resultado positivo de todas as receitas e despesas do governo, excetuando gastos com pagamento de juros. O déficit primário ocorre quando esse resultado é negativo. Ambos constituem o "resultado primário". O resultado primário é importante porque indica, segundo o Banco Central, a consistência entre as metas de política macroeconômicas e a sustentabilidade da dívida, ou seja, da capacidade do governo de honrar seus compromissos. A formação de superávit primário serve para garantir recursos para pagar os juros da dívida pública e reduzir o endividamento do governo no médio e longo prazos.

Fonte: Agência Senado

George Soros

húngaro-estadunidense de 92 anos, George Soros é um dos maiores investidores e filantropos do mundo.

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.