March 8, 2023
“Uma margem de segurança é alcançada quando os títulos são comprados a preços suficientemente abaixo do valor subjacente para permitir erro humano, má sorte ou extrema volatilidade em um mundo complexo, imprevisível e em rápida mudança.”
Seth Andrew Klarman
Trecho citado em nossa Carta de 12 meses atrás: Margem de Segurança, fev/2022.
O tema da carta deste mês, Curto Prazo, é o oposto de um dos pilares da filosofia de investimentos do escritório. Os leitores mais assíduos já devem estar desgastados do tanto que citamos as vantagens de se investir para o longo prazo e o poder dos juros compostos ao longo do tempo.
No curto prazo, o mercado financeiro pode ser altamente volátil - e as emoções muitas vezes podem levar os investidores a escolhas impulsivas. Contudo, abriremos uma exceção à nossa filosofia para explicarmos os temas relevantes dentro do atual cenário, com foco no curto prazo, e exercitarmos a futurologia com o intuito de entendermos onde estamos e para onde poderemos ir.
Como um antídoto à nossa tendência de tomar decisões definitivas baseados em informações incompletas (que serão demonstradas ao longo do texto) e horizontes restritos, recapitularemos os principais fatores psicológicos que deturpam a nossa visão durante o nosso processo decisório:
FOMO (Fear of Missing Out): Um dos fatores psicológicos mais significativos no investimento de curto prazo é o medo de perder alguma oportunidade, ou FOMO. Se manifesta através da ansiedade ou do sentimento de arrependimento que surge quando os investidores veem outras pessoas ganhando dinheiro com uma determinada ação ou ativo, e se preocupam com a possibilidade de não participar de ganhos potenciais. O FOMO pode levar os investidores a comprar uma ação ou ativo a um preço alto, mesmo quando não é a melhor escolha de investimento.
Viés de confirmação: tendência de buscar informações que apoiem nossas crenças existentes e ignorar as informações que as contradizem. No mercado financeiro, por exemplo, isso pode levar os investidores a se concentrarem apenas em notícias ou informações negativas sobre um determinado ativo ou situação do mercado, ignorando quaisquer informações que venham de encontro a estas.
Efeito manada: tendência de seguir a multidão e tomar decisões de investimento com base no que os outros estão fazendo, e não com base em pesquisas e análises acuradas.
Excesso de confiança: tendência de superestimar a capacidade de prever o mercado ou de fazer negociações bem-sucedidas. Investidores excessivamente confiantes podem assumir mais riscos do que conseguiriam lidar; ou podem tomar decisões impulsivas com base em um pressentimento ou palpite, em vez de pesquisas e análises sólidas.
Aversão à perda: tendência de sentir mais intensamente a dor das perdas do que a felicidade dos ganhos. A aversão à perda pode levar os investidores a se desfazer de bons investimentos mesmo que os resultados insatisfatórios sejam apenas transitórios.
Para mais informações sobre esses e outros vieses dos investidores, acesse nosso artigo de jul/2020: Vieses
Feito o disclaimer acima, peço que o leitor prossiga a leitura tendo esses vieses em vista. Dividiremos por temas:
Crédito Privado
Com a rápida alta da Selic e eventos assimétricos no mercado de crédito privado (recuperação judicial das Lojas Americanas e outras reestruturações de dívidas), o mercado de renda fixa está sendo reprecificado e, como decorrência, tivemos algumas correções nos ativos.
Por isso, o resultado de alguns fundos de renda fixa em que investimos foi abaixo do esperado, apesar de positivo. Qual a explicação?
No mercado de crédito, é comum falar-se em “spread”: a comparação do valor relativo dos ativos em relação aos títulos públicos comparáveis (por estratégia e vencimentos). De acordo com a gestora Sparta, em sua última comunicação mensal, esse spread pode ser impactado essencialmente por dois fatores:
(i) deterioração das métricas de crédito de um emissor (em suma, o ativo apresenta maior risco de crédito: maior chance de inadimplemento); e/ou
(ii) desbalanceamento entre oferta e demanda por esses ativos, muitas vezes ocasionado pela entrada ou saída de recursos da classe de crédito privado (aportes ou resgates desproporcionais).
No mês de janeiro, os fundos de renda fixa que investem nesse perfil de ativos foram impactados principalmente por conta do primeiro fator - em decorrência da perda de valor nas debêntures das Lojas Americanas após a fraude contábil e o pedido de recuperação judicial.
No mês de fevereiro, os fundos foram impactados pelo segundo fator, em virtude da saída de recursos da classe de crédito privado, ou seja: queda na demanda por ativos de crédito e maior exigência de prêmio por parte dos compradores (percebendo maior risco de crédito, e por isso exigindo maior desconto no valor dos ativos). Nesse caso, se por um lado os ativos perdem valor no curto prazo, por outro os fundos contratam uma maior rentabilidade futura em virtude do aumento do spread médio da carteira.
Fato semelhante ocorreu entre março e abril de 2020, por exemplo, como indicam os resultados do fundo de crédito privado da gestora Sparta, o Sparta Top (destaque em vermelho):
Disponível no Mais Retorno.
De fato, os retornos subsequentes dos fundos de liquidez (resgate D+1) na indústria de crédito privado foram fortes após o cessamento das correções, como se percebe na rentabilidade do fundo Sparta Top, acima (destaque em azul).
Portanto, é possível que este movimento ocorra novamente, já que as carteiras dos fundos estão sendo ajustadas com melhora da relação risco x retorno no segmento de crédito. Continuaremos a monitorar para evitarmos qualquer tipo de perda irrecuperável aos portfólios.
Juros no Brasil
Temos uma contenda entre o governo eleito e o presidente do Banco Central com relação ao patamar da Selic. Há espaço para forte redução no curto prazo?
Na nossa visão: atualmente, não.
Não existe confiança no Teto de Gastos vigente. Foi aprovada uma PEC superando os limites impostos pelo Teto de Gastos em R$ 145 bilhões, podendo chegar a R$ 200 bilhões.
Temos uma constante deterioração das expectativas dos agentes do mercado financeiro com relação à inflação de longo prazo.
Bancos públicos (BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) serão incentivados a conceder crédito, aumentando a pressão sobre a inflação.
Inflação americana continua em patamares elevados, pressionando, comparativamente, as taxas de juros brasileiras.
Será necessário o Governo Federal e o Legislativo fazerem o dever de casa para que tenhamos as condições necessárias para queda de juros, tais como: reduzir gastos com a máquina pública, entregar um novo arcabouço fiscal e realizar uma reforma tributária que traga competitividade ao país.
Renda variável
Com a piora das expectativas em relação à economia nacional, os agentes do mercado esperam queda no lucro das empresas. Queda no lucro, aliada às taxas de juros em patamares altos, significa marcação negativa nos preços das ações - já que proporciona uma deterioração nas métricas de valuation das companhias.
Portanto, no curto prazo, para quem tiver o perfil e a capacidade técnica, o stock picking é mais adequado do que esperar um forte movimento de alta do índice Ibovespa (apostar em determinadas empresas ou setores específicos, em vez de contar com uma alta generalizada do mercado de ações).
E o que mais importa, tendo em vista este cenário?
Margem de segurança, e isso vale para qualquer cenário. Conforme citado na nossa carta de fevereiro de 2022:
O objetivo da margem de segurança é fazer com que a futurologia não seja tão necessária. É a única forma de navegar com segurança em um universo dominado pela incerteza.
A margem de segurança é um escudo contra os nossos vieses psicológicos!
A margem de segurança é o plano H para quando os planos A-B-C-D-E-F-G fracassarem!
A margem de segurança é o plano para quando não há mais planos!
Estamos à disposição para aprofundarmos sobre os temas acima e continuarmos a preservar e evoluir o seu patrimônio.
Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.